Desabotoou com semi-urgência desajeitada os três botões que ainda escondiam a sua impaciente nudez. Com um arranhar de unhas vermelho sangue, sentiu suas pérolas voarem espalhando barulho e faíscas pelo chão. Naquele momento eram só cheiros, sussuros macios, relances de luzes que penetravam entre as pálpebras levemente fechadas, murmúrios da rua, sibilos da televisão esquecida quase muda.
E o vermelho sangue das unhas esquivava-se e voltava a procurar os obstáculos do ventre, as pequenas marcas ao longo do dorso, os leves cílios que cobriam as coxas. As línguas confundiam-se e desenrolavam-se por entre braços, nucas, ombros, cinturas, um balé sem música. Os vãos entre os dedos eram preenchidos de sopro e saliva, os cabelos grudavam no suor que corria pela face e se confundiam em uma mistura marrom dourada e úmida.
A que horas haviam se encontrado? Já não poderia dizer..nem se havia sido nessa noite ou em outra qualquer…nesse século ou outro…ou se ainda nessa vida. Somente sabiam que o desejo havia virado sobremesa interrompendo e engasgando o gole de champanhe. Não se importaram com os olhares de reprovação. Surdas. Cegas. Mudas. Com os dentes rangendo e a respiração ofegando. Se pudessem faziam da toalha de mesa o lençol e das taças os lábios. Se mais ousadia tivessem, se derrubariam por cima da mesa e deixariam derramar-se no chão entre champanhe e saliva.
A lua invadia escandalosamente a janela dissimulando os risos furtivos entre as cobertas e banhando o quarto de uma névoa gelada que não conseguia afastar o calor febril dos corpos ou do corpo, porque eram uma só. Muitas horas já haviam transcorrido desde o início daquele ritual, tantas que, entre exaustas e aliviadas, elas abandonaram-se passivamente e se permitiram alguns momentos de terna mansidão.
Antes da aurora porém um ruído despertou a consciência intranqüila…
Com um arrepio de espanto e um tremor nos olhos acordou-se de repente, percebeu que as unhas vermelhas descansavam nos seus cabelos e viu as pérolas do seu colar espalhadas pelo chão. Desvencilhou-se dos lençóis e na ponta dos pés começou a perambular o ambiente quase desconhecido. De vez em quando sentia a cabeça latejar e isso a recordava da embriaguez persistente. Sentou-se na poltrona puída próxima da janela. Nua, com os anéis dos cabelos castanhos descansando sobre seus seios. A fria luz e o silêncio da madrugada banhavam a sua pele branca, tornando-a quase irreal.
Acendeu um cigarro e ficou observando os desenhos de fumaça, passeando com o olhar o cômodo pouco mobiliado, coberto por uma fina camada de poeira e pequenos pontos brilhantes, na certa teias de aranha. Da posição em que estava conseguia delinear o perfil da sua amante que continuava adormecida, notou em seu rosto lívido de prazer e cansaço um sorriso discreto, talvez em seu sonho as carícias continuassem. Também ela sorriu ao dar-se conta de toda a vida e juventude que berravam na pele morena de sol, naqueles falsos fios loiros, e, principalmente, no vermelho do vestido que envolvia parte de seu corpo como sangue e das unhas, sim, aquelas unhas que arrebentaram o seu tão estimado colar e que deixaram em sua nuca, costas, pernas e braços a prova da infidelidade e do arrebatamento.
Vestiu-se cuidadosamente, caminhou até o espelho e tentou adivinhar no rosto alguma mudança, algum traço que revelasse as travessuras da noite. Tudo parecia tão igual. Exceto talvez a certeza de que algo além do colar havia sido rompido para sempre.
Deixou uns bons trocados sobre a cômoda e inclinou-se para se despedir sutilmente, tentando não deixar escapar pelos lábios uma promessa que jamais seria cumprida.
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