Sabe o que é bom? Bom mesmo? Me aninhar no teu abraço quando tá chovendo, ficar enrolada no edredon com o ouvido colado no teu peito enquanto tu me faz cafuné distraidamente durante o futebol.

Sabe o que é bom? Bom mesmo? Decidir o que vamos fazer com o domingo. Se vamos jogar Banco Imobiliário, ver filme, comer sorvete, ir no cinema. Tudo isso de pijama no meio da tarde.

Sabe o que é bom? Bom mesmo? Inventar piadas novas, implicâncias novas, apostas novas. Fazer jantar romântico com comida pronta, cair na cama derrubados de sono, sem ânimo até pra conversar.

Sabe o que é bom? Bom mesmo? Te achar no meio do temporal, ficar doente só pra comer o teu purê de batatas, trabalharmos juntos cada um num computador, ouvindo meu time jogar e rindo dos comentários dos locutores.

Bom mesmo é dividir contigo as coisas simples do fim-de-semana e rir da vida sem pressa, sem medo, sem stress. Bom mesmo é compartilhar de uma mesma vontade. Bom mesmo é estarmos juntos.

Trincheira

A lama aumentava cada vez mais a sua volta na verdade, todo ele era lama. Suas botas, seu uniforme, seu rosto, mas principalmente sua alma. Já fazia cinco noites que era impossível dormir a neurose com o inimigo aumentava com as sombras dos dias nublados e agora com aquela chuva incessante. Já não sabia o que era trovão e o que era tiro. Há muito para ele os relâmpagos haviam se transformado em bombardeio. Se conseguisse ao menos descansar por cinco minutos sem ouvir os passos nas poças de água ou o sussurro dos feridos rastejantes e as lamentações dos mutilados e se ao menos não soubesse que atrás das trincheiras inimigas encontraria a ele mesmo, outro jovem sem dormir, atormentado pela paranoia da perseguição. Um reflexo da própria morte. Nunca houve ideiais em seu espírito, nunca havia possuído inimigos nem mesmo havia dado um soco em alguém, nem nos tempos do colégio. Agora estava ali passando fome, frio, torturado por não saber porque atirar e de quem se defender, torturado pela lembrança daqueles que não havia escolhido matar, torturado pelos uivos, relâmpagos, trovões, tiroteios. Ao invés de lavar os pingos de chuva só faziam espalhar ainda mais aquela mistura de barro e sangue, parecia que o céu e as nuvens revoltavam-se e lamentavam o horror que se desenrolava naquele campo de batalha.

Não sabia que horas eram e nem quantos dias ainda teria pela frente. Aos vinte anos era mais um anônimo que poderia morrer ou não mas que teria para sempre gravado em sua memória e cicatrizes os meses passados naquela guerra. Pensava em seus pais, pensava em sua namorada, pensava naquele lugar em que passara a vida inteira e que agora representava o país que lhe mandava sem piedade para a morte e para o sofrimento sem lhe justificar a razão. Havia só uma resposta que ele gostaria de ter, uma resposta que lhe faria talvez dar significado aquilo que estava vivendo: “Patriotismo é amor a pátria certo? E como se chama o amor da pátria por seus filhos?”
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Fé: (do grego: pistia e do latim: Fides[1]) é a firme convicção de que algo seja verdade, sem nenhuma prova de que este algo seja verdade, pela absoluta confiança que depositamos neste algo ou alguém.(…) Ter fé é nutrir um sentimento de afeição, ou até mesmo amor, pelo que se acredita,confia e aposta

Fonte: Wikipedia

Ela alisou o ventre protuberante delicadamente, como que fazendo adormecer o bebê que ainda estava por vir. Nos últimos dias o sentira agitado, ativo e feliz, como ela também estava. Sentada na poltrona cor-de-rosa clarinha, um dos primeiros móveis a decorar aquele novo quarto, Alice recebia a luz do sol que coloria as ondas de seu cabelo castanho escuro e delineava o sorriso suave que decorava seu rosto. Fechava os olhos e imaginava que em alguns meses teria sua filha em seus braços, fazendo folia com suas pequenas mãozinhas e enchendo a casa silenciosa de alegria, quase não continha as lágrimas ao pensar naquele corpo pequenino que em breve estaria aninhado em seu colo.

Às vezes, Alice sentia-se inquieta, imaginando se a criança nasceria perfeita, se o seu casamento com Rafael iria durar, se ela ficaria mais gorda, mais feia, se conseguiriam pagar as contas, se a filha iria bem no colégio, se a filha gostaria dela, se sobreviveria ao parto difícil, se teria mais estrias e cabelos brancos…
Alice se perguntava intimamente se era o momento certo, afinal, ela e Rafael haviam acabado de casar há poucos meses e já haviam passado da idade de ter filhos, além do mais, seus empregos nem eram tão estáveis assim. A gravidez havia forçado a mudança de apartamento, a mudança de vida e ela se angustiava com a possibilidade de não se adaptar. Durante todos esses momentos a única coisa que a mantinha firme era a convicção daquela vida que a habitava e que se fazia presente através de chutes e pontapés de incentivo, a vida berrava em seus ouvidos. O bebê trouxera para Alice o conforto e a certeza de que no final, tudo se ajeitaria.

Claro que primeiro ela e Rafael teriam que terminar de desencaixotar a mudança, consertar a torneira, habilitar a linha telefônica, resolver o problema do gás e do portão da garagem, mas tudo bem, o dia sorria para Alice pela janela e ela sentia no fundo, no fundo, uma doçura em todos esses problemas, uma ternura e um carinho pelas dificuldades que guiavam a construção dessa nova família. Ela e a filha ouviram a chave girar na fechadura e despertaram de sua calma tarde, Alice sorriu para sua barriga com uma cumplicidade que refletia a sua fé no futuro bonito que tinha pela frente.

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Eu sei, post atrasadérrimo, fazer o quê! Duas faculdades, trabalho em período integral e namorado acabaram sugando minha energia nos últimos tempos, não consegui escrever, em suma….taí…não queria deixar de participar…

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Trust_Me__Please__by_cheeseboy18193Com os restos do que sobrou de nós eu teci a colcha com que me cubro todas as noites. Com os pedaços do fomos me refaço a cada dia e surjo dos reflexos que um dia tivemos nos espelhos por onde passamos. No meu sorriso colei os fragmentos recortados das nossas gargalhadas insones e nas minhas palavras ainda tropeço nas tuas sílabas e confundo o que é meu, o que é teu e o que foi nosso.

Te vejo ainda em minha lembrança, como um vitral de uma igreja abandonada por onde o sol realça algumas cores e as sombras escondem outras, aquelas que não quero enxergar (por esse mesmo vitral estão nossas mãos separadas e a nossa preciptação). Saber-te longe, ainda que diante de meus olhos me faz triste e alegre porque me entendo distante também de ti e de nós. Não que eu sinta saudade, é apenas nostalgia daquilo que ainda não fomos e que provavelmente não iremos ser, uma vaga esperança de que poderia ter sido diferente, se não fôssemos tão iguais e tão igualmente não engolíssemos um ao outro.

Vou colando pedaços de nossas fotos para montar o quebra-cabeça de minha vida e com ele vou aprendendo um pouco mais de mim, me construindo e reconstituindo aquilo que outrora deixei escapar. Nas frestas que você me permitiu, somente por elas me reconheço, tentando separar o que fizemos de mim do que já fui e do que ainda posso ser. Tento ser eu mesma de novo ainda que seja outra.

Engraçado, nessas mesmas fotos rasgadas ainda percebo o brilho que meus olhos irradiavam, uma beleza inocente que só existia enquanto ainda não havia nada de você em mim. Deixei que você me roubasse muitas coisas, também eu fui ladra e trouxe comigo partes que antes eram suas, porém, essa ingenuidade, essa confiança na vida e no futuro (que hoje vejo claramente em nossos retratos), essa se perdeu, nunca esteve em ti e de mim se apartou, fugiu pela mesma porta que você deixou entreaberta com promessas de nunca mais.

Essa certeza que não tenho mais, somente ela, eu gostaria de recuperar. Se você estiver lendo isso e a encontrar no meio de suas malas, por favor, me envia por sedex.

*Essa postagem participa do Postagen Temática
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O tema dessa edição foi: Fotografia

ausenciaNaquela quarta-feira em que você abriu a porta sem fazer o costumeiro alarde eu sabia o que tinha perdido.

Quando você não me chamou com sua mania de chorar sorrindo para ajudar a encontrar o celular, o relógio, o controle remoto, eu percebi que era tarde demais.

Naquela noite em que as meias aqueceram os seus pés antes que eles viessem procurar os meus, eu senti que havia acabado.

Naquela manhã de sábado em que pela primeira vez não bebi seu sorriso junto com o cereal, eu chorei em silêncio.

Naquela viagem em que a estrada pareceu mais longa do que as nossas canções e o silêncio deixou de ser paz para traduzir-se em angústia, eu vi a minha solidão passar pela janela.

Naquela festa em que sua taça ficou vazia e o zíper do meu vestido permaneceu intacto, eu jurei que lhe abandonaria.

Naquele telefonema que você fingiu não dar, eu senti o gosto do seu sangue na minha garganta.

Naquelas vezes em que você me amou sem estar presente, o peso da sua ausência sufocou os meus gritos.

Enquanto você dormia eu procurava em vão uma brecha aonde pudesse encontrar pelo menos uma parte sua que ainda tivesse meu cheiro.

Quando você deixou de voltar eu brindei a sua falta com whisky quente. Engoli a sua indiferença destilada em puro malte.

Alegoria da Caverna - Platão

Alegoria da Caverna - Platão

O tema escolhido pelos blogueiros do “Blogs Sintonizados” dessa vez me pegou de jeito. Fomos chamados a escrever sobre o Twitter. Um desafio, realmente. Comecei por escrever uma crônica ou algo do gênero, depois optei pelo conto e por último a poesia. Nada. Nada ajudou.Simplesmente vazio.

Recorri à própria ferramenta, voltei ao Twitter somente para re-constatar(!?) minha incapacidade de usar essa maneira de comunicação. Seja talvez pela combinação astrológica que faz de mim uma perfeita aquariana, adepta ao melhor estilo do “tu tá me controlando?” ou talvez, dona de uma autêntica personalidade paranoide que me faz ter pânico de achar que alguém pode de fato estar de olho nos meus passos. Seja qual for o motivo, não consigo me adaptar ao Twitter.

Se por um lado a utilização desse recurso voltado à publicidade traz resultados imediatos devido a rápida (ultrassônica,melhor dizendo) velocidade de replicação de mensagens, por outro, pessoalmente, não vejo muitas razões para se estar por lá.Na minha modesta opinião, e nesse caso, bem modesta mesmo já que não passo de uma usuária fantasma, o Twitter é uma vitrine de pessoas tentando enfiar boas “tiradas” que as façam se diferenciar em uma rede com tanta gente conectada ao mesmo tempo.

Ou seja, voltamos ao mito da caverna de Platão. Para quem não conhece, trata-se da explicação do filósofo para a nossa condição humana em relação ao nosso conhecimento do mundo. Homens presos em uma caverna escura, que nasceram e viveram a vida inteira ali, virados para a parede, enxergam as sombras produzidas pelo fogo que se encontra atrás deles (do qual, portanto, eles não tem conhecimento) e pelos homens que estão do outro lado, no mundo exterior. Essas sombras dão a eles a impressão de monstros e fantasmas, as sombras são a sua realidade. Mas quando finalmente libertados, perplexos, entenderão que são somente homens iguais a eles alimentando uma simples fogueirinha.

Ainda que a alegoria de Platão se refira ao despertar da consciência, podemos admiti-la no sentido da desconstrução das aparências. O sujeito ao utilizar o Twitter, ou Orkut, ou mesmo os nossos queridos blogs (!) sente-se tentado a maquiar a sua realidade de forma que ao invés de homens medíocres, todos nós acabamos por nos transformar em gênios da retórica. Fazemos nossa vida parecer um roteiro de novela das oito e nossas frases (tiradas das Seleções do Reader’s Digest) almejam entrar na história da Web como pitadas de filosofia.

No final das contas, ao conhecer a pessoa por trás da ironia, entendemos com decepção que tantos recursos somente existem para alimentar nosso ego de celebridade-decadente-ignorada-pela-Caras: escandalizando para chamar a atenção. De fato talvez sejamos todos um pouco Britney Spears.

(Existe a possibilidade desse texto ser só um desabafo de alguém incompetende ou desinteressante demais para usar o Twitter)

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Essa postagem faz parte da proposta do Rafael Gloria no http://www.blogsintonizados.blogspot.com/

Sugestão para o próxmo tema: Preto e Branco

Se você quiser eu vou te dar um amor desses de cinema.

Fato.

Sabe aqueles dias em que tu acorda após um atropelamento de uma manada de mastodontes, querendo ser esquecido pela humanidade em um quarto escuro e sem som com um copo de coca-cola gelado e infinito?

E mesmo assim tu te sente a pessoa mais sortuda do mundo, imensamente piegas e feliz?

Hoje eu estou assim: amassada, esmagada e, ainda assim, exultante…

Let it shine, let it shine, let it shine…

algemas_400
Eu preciso que você me solte.

Não quero mais ser vazio, fazer perguntas ocas para as quais as respostas não me interessam. Fingir que me importo com os teus pais, que admiro o teu trabalho, que tuas ideias são originais ou que morro de saudades dos teus velhos hábitos.Não quero mais ser confortável para apresentar, ser divertido para acompanhar, ser contido para continuar.Não suporto mais ser artificial para te contentar.

Eu preciso que você me largue.

Se pudesse te diria a verdade sobre o meu mudo desespero, sobre minhas noites imaginando novos rumos, sobre minha alegria na distância. Se tu me enxergasse, saberia que não aguento os mesmos amigos, as mesmas histórias, a tua confiança e passividade diante dos meus absurdos. A estabilidade dos mesmos gestos, a tua irritação velada e contida.O teu semblante de heroína da novela.

Eu preciso que você me grite.

Quero poder desabafar toda a angústia, derramar lágrimas nos teus seios, arranhar tua pele te implorando que viva, sentir o sangue ferver de desejo e impaciência. Quero sacudir nosso tédio, parar de poupar nossas forças. Quero te amar contra a parede, esquecer das horas, esquecer do que somos. Quero estar dentro de ti, te engolir e te ferir, te fazer sentir dor para te provocar alguma reação.Quero ver teu cabelo desalinhado, tuas roupas rasgadas, tua gargalhada soluçada.

Eu preciso que você pare.

Chega de insultos vazios, de desinteresse, de aparentar embriaguez para esconder a mais ridícula sobriedade. Chega de ser o fruto da tua criação, de responder aos teus pré-requisitos, de atender as tuas queixas mais fúteis. Chega de me enjaular numa moldura simétrica.Eu quero a lama, eu quero o lodo.

Eu preciso que você me deixe.

Quero sentir o sol ardendo na minha pele, fazer piadas de mau-gosto e rir sozinho. Não quero ter boas maneiras. Quero me esconder de vez em quando e me descobrir de novo e de novo sem me justificar. Quero romper meu peito de raiva e me esvaziar somente para depois me encher de novo. Quero passar madrugadas destilando insucessos, fazendo planos de fugas, traçando futuros improváveis, derrubando garrafas por prazer e não por remédio.Quero ser medícore, quero ser profundo, quero me contradizer. Quero não combinar roupas, deixar crescer a barba, quero me desfazer dos meus bens, ser o filho bastardo, ser rejeitado e buscado de volta.

Eu preciso.

Ser.


Desabotoou com semi-urgência desajeitada os três botões que ainda escondiam a sua impaciente nudez. Com um arranhar de unhas vermelho sangue, sentiu suas pérolas voarem espalhando barulho e faíscas pelo chão. Naquele momento eram só cheiros, sussuros macios, relances de luzes que penetravam entre as pálpebras levemente fechadas, murmúrios da rua, sibilos da televisão esquecida quase muda.

E o vermelho sangue das unhas esquivava-se e voltava a procurar os obstáculos do ventre, as pequenas marcas ao longo do dorso, os leves cílios que cobriam as coxas. As línguas confundiam-se e desenrolavam-se por entre braços, nucas, ombros, cinturas, um balé sem música. Os vãos entre os dedos eram preenchidos de sopro e saliva, os cabelos grudavam no suor que corria pela face e se confundiam em uma mistura marrom dourada e úmida.

A que horas haviam se encontrado? Já não poderia dizer..nem se havia sido nessa noite ou em outra qualquer…nesse século ou outro…ou se ainda nessa vida. Somente sabiam que o desejo havia virado sobremesa interrompendo e engasgando o gole de champanhe. Não se importaram com os olhares de reprovação. Surdas. Cegas. Mudas. Com os dentes rangendo e a respiração ofegando. Se pudessem faziam da toalha de mesa o lençol e das taças os lábios. Se mais ousadia tivessem, se derrubariam por cima da mesa e deixariam derramar-se no chão entre champanhe e saliva.

A lua invadia escandalosamente a janela dissimulando os risos furtivos entre as cobertas e banhando o quarto de uma névoa gelada que não conseguia afastar o calor febril dos corpos ou do corpo, porque eram uma só. Muitas horas já haviam transcorrido desde o início daquele ritual, tantas que, entre exaustas e aliviadas, elas abandonaram-se passivamente e se permitiram alguns momentos de terna mansidão.

Antes da aurora porém um ruído despertou a consciência intranqüila…
Com um arrepio de espanto e um tremor nos olhos acordou-se de repente, percebeu que as unhas vermelhas descansavam nos seus cabelos e viu as pérolas do seu colar espalhadas pelo chão. Desvencilhou-se dos lençóis e na ponta dos pés começou a perambular o ambiente quase desconhecido. De vez em quando sentia a cabeça latejar e isso a recordava da embriaguez persistente. Sentou-se na poltrona puída próxima da janela. Nua, com os anéis dos cabelos castanhos descansando sobre seus seios. A fria luz e o silêncio da madrugada banhavam a sua pele branca, tornando-a quase irreal.

Acendeu um cigarro e ficou observando os desenhos de fumaça, passeando com o olhar o cômodo pouco mobiliado, coberto por uma fina camada de poeira e pequenos pontos brilhantes, na certa teias de aranha. Da posição em que estava conseguia delinear o perfil da sua amante que continuava adormecida, notou em seu rosto lívido de prazer e cansaço um sorriso discreto, talvez em seu sonho as carícias continuassem. Também ela sorriu ao dar-se conta de toda a vida e juventude que berravam na pele morena de sol, naqueles falsos fios loiros, e, principalmente, no vermelho do vestido que envolvia parte de seu corpo como sangue e das unhas, sim, aquelas unhas que arrebentaram o seu tão estimado colar e que deixaram em sua nuca, costas, pernas e braços a prova da infidelidade e do arrebatamento.

Vestiu-se cuidadosamente, caminhou até o espelho e tentou adivinhar no rosto alguma mudança, algum traço que revelasse as travessuras da noite. Tudo parecia tão igual. Exceto talvez a certeza de que algo além do colar havia sido rompido para sempre.

Deixou uns bons trocados sobre a cômoda e inclinou-se para se despedir sutilmente, tentando não deixar escapar pelos lábios uma promessa que jamais seria cumprida.

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Naquele dia ela estava de coração aberto, pronta para as possibilidades que a tarde fresquinha prometia. Não era calor nem frio e mesmo assim ela se arrepiava e molhava de suor a blusa branca diante de um milhão de diferentes temperaturas. No fundo, sabia que um sorriso brilhante e honesto transparecia o momento que vivia. No fundo, sabia que naquele dia seus olhos grandes (demais) e curiosos estavam radiantes de expectativa. Naquele dia ela resolvera aceitar o mundo e a si mesma. E estava pronta, acabada, concluída. Pronta para também ela ser aceita e recebida pelo mundo. Mas foi ela quem recebeu. Foi ela que em um instante ofereceu os braços e o abraço sincero. Com a pureza de quem entende ele notou, ele percebeu. Percebeu o que ela ainda não sabia. Ele percebeu que ela o havia esperado até aquele dia. Talvez até respondesse caso houvesse perguntas a serem feitas, mas não havia e nem haveria. Somente uma compreensão mútua, um infinito de hipóteses e suposições nunca antes concebidas. Nesse dia mergulharam juntos em sua verdade calada e velaram a paz que a noite paria.

Como diria a Martha Medeiros…

"(...)A carne é fraca, mas você tem que ser forte, é o que recomendam todos. Tente, ao menos de vez em quando, ser sexualmente vegetariano e não ceder às tentações. Se conseguir, bravo: terá as rédeas de seu destino na mão. Mas se não der certo, console-se. Criaturas que derretem-se, entregam-se, consomem-se e não sabem negar-se costumam trazer um sorriso enigmático nos lábios. Alguma recompensa há de ter."

O meu blábláblá: