Ontem a noite você me pediu em casamento.
Não foi a primeira vez, nem a segunda.
Me pede em casamento e eu calo.
Desvio o assunto, sorrio e ficamos assim.
Aí fazemos uma piada e a frase vai desaparecendo no ar.
Mas você não sabe o motivo do meu silêncio, nem do meu sorriso mudo.
Ontem a noite você me pediu em casamento.
E eu novamente tentei disfarçar os sentimentos que quase me sufocam nessas horas.
Se eu não tivesse desviado os olhos você não precisaria mais perguntar
Se eu não fosse tão contida e assustada
Se eu não continuasse com essa mania de frieza e independência
Eu entregaria os pontos e a resposta passaria pelos meus lábios antes de passar pela minha cabeça.
Ontem a noite você me pediu em casamento.
E eu imediatamente revisei todos os meus conceitos acerca da vida a dois
Fui busar no fundo da memória a parte que ainda conservava alguns sonhos sobre amor eterno
Lembrei do Vinicius (de Moraes) e a importância do INFINITO enquanto dure
Pensei em mim e nas questões que pesam em nosso relacionamento
Se eu pensasse EM NÓS você já teria adivinhado a resposta.
Ontem a noite você me pediu em casamento.
Eu relutei, repensei, analisei, calculei, pesei
Medi os riscos e benefícios
Planilhei e configurei
Como se fosse mais uma operação dos negócios do dia a dia
Como se você estivesse em minha mesa de trabalho
Eu esqueci de responder.
Ontem a noite você me pediu em casamento.
Parece que eu até já tinha aceitado.


Com os restos do que sobrou de nós eu teci a colcha com que me cubro todas as noites. Com os pedaços do fomos me refaço a cada dia e surjo dos reflexos que um dia tivemos nos espelhos por onde passamos. No meu sorriso colei os fragmentos recortados das nossas gargalhadas insones e nas minhas palavras ainda tropeço nas tuas sílabas e confundo o que é meu, o que é teu e o que foi nosso.
Naquela quarta-feira em que você abriu a porta sem fazer o costumeiro alarde eu sabia o que tinha perdido.