Trincheira

A lama aumentava cada vez mais a sua volta na verdade, todo ele era lama. Suas botas, seu uniforme, seu rosto, mas principalmente sua alma. Já fazia cinco noites que era impossível dormir a neurose com o inimigo aumentava com as sombras dos dias nublados e agora com aquela chuva incessante. Já não sabia o que era trovão e o que era tiro. Há muito para ele os relâmpagos haviam se transformado em bombardeio. Se conseguisse ao menos descansar por cinco minutos sem ouvir os passos nas poças de água ou o sussurro dos feridos rastejantes e as lamentações dos mutilados e se ao menos não soubesse que atrás das trincheiras inimigas encontraria a ele mesmo, outro jovem sem dormir, atormentado pela paranoia da perseguição. Um reflexo da própria morte. Nunca houve ideiais em seu espírito, nunca havia possuído inimigos nem mesmo havia dado um soco em alguém, nem nos tempos do colégio. Agora estava ali passando fome, frio, torturado por não saber porque atirar e de quem se defender, torturado pela lembrança daqueles que não havia escolhido matar, torturado pelos uivos, relâmpagos, trovões, tiroteios. Ao invés de lavar os pingos de chuva só faziam espalhar ainda mais aquela mistura de barro e sangue, parecia que o céu e as nuvens revoltavam-se e lamentavam o horror que se desenrolava naquele campo de batalha.

Não sabia que horas eram e nem quantos dias ainda teria pela frente. Aos vinte anos era mais um anônimo que poderia morrer ou não mas que teria para sempre gravado em sua memória e cicatrizes os meses passados naquela guerra. Pensava em seus pais, pensava em sua namorada, pensava naquele lugar em que passara a vida inteira e que agora representava o país que lhe mandava sem piedade para a morte e para o sofrimento sem lhe justificar a razão. Havia só uma resposta que ele gostaria de ter, uma resposta que lhe faria talvez dar significado aquilo que estava vivendo: “Patriotismo é amor a pátria certo? E como se chama o amor da pátria por seus filhos?”
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